Entrevista: Eddy Webb, desenvolvedor de Produtos Alternativos da WW

Eddy Webb, não o Jesus Legal

Há cerca de duas semanas, por conta de alguns artigos circulando entre os autores da White Wolf e discussões no fórum da RPG.Net, iniciei uma conversa com Eddy Webb via Google Wave para debater as tendências futuras no campo de livros eletrônicos, leitores de e-books e jogos de RPG com suporte de novas tecnologias. Essa conversa virou uma entrevista, que vocês lêem em primeira mão aqui.

Para que os leitores saibam exatamente qual é o seu papel na White Wolf (WW): o que a editora considera ser um “Produto Alternativo”? Além disso, que tipos de Produtos Alternativos a editora já havia lançado quando você assumiu o papel de desenvolvedor destes produtos, e o que você teve a chance de lançar desde então?

SAS, o formato das histórias prontas em PDF

SAS, o formato das histórias prontas em PDF

Um produto alternativo é algo diferente de um tradicional livro de capa dura em uma loja de jogos, mas em geral, se trata de produtos com algum tipo de componente digital: livros eletrônicos em PDF, podcasts, impressão sob demanda (no inglês, PoD, ou print-on-demand) e assim por diante. Quando vim para cá, havia apenas alguns poucos (produtos no formato) SAS e um produto lançado exclusivamente em PDF, Imperfect Lotus [para Exalted]. Desde então, pude lançar mais de 50 novos produtos alternativos.

Além disso, se me lembro bem, os poucos SAS disponíveis eram livros eletrônicos “simples”, enquanto hoje em dia há recursos extras em tais produtos, como links internos, arquivos de áudio e afins. Mas como conversamos anteriormente, uma das razões pelas quais sugeri esta entrevista foi o anúncio do ICC (Conclave Internacional do Camarilla Club). No evento, a WW reiterou que continuará a lançar produtos eletrônicos no formato PDF, já que a maioria, senão todos, os dispositivos leitores eletrônicos disponíveis no mercado conseguem ler este formato. Ao mesmo tempo, a popularidade do Kindle deve aumentar ainda mais, agora que o leitor está disponível no mercado internacional. O que você pode nos contar sobre os planos da editora neste sentido? Mesmo que ainda não possa nos contar, o que você acha do estado atual dos leitores eletrônicos, e que tipos de problemas eles ainda precisam resolver para que o uso supere o de livros impressos como mídia principal para distribuição de material escrito?

Kindle 2, lançado internacionalmente

No momento, os nossos planos para o futuro das publicações eletrônicas ainda estão em aberto, mas uma coisa que eu gostaria de destacar quanto ao anúncio do ICC foi que Ryan (Dancey, Diretor de Marketing) enfatizou a nossa dedicação em evitar produtos específicos para uma plataforma. Nós NÃO queremos atrelar os nossos produtos a formatos proprietários como o do Kindle – em vez disso, queremos permitir que as pessoas leiam os nossos produtos no Kindle, em seus computadores, em seus celulares e assim por diante. Como e o quanto nós seremos capazes de fazê-lo ainda é uma questão em aberto, mas eu não nos vejo insistindo em um formato.

Quanto aos leitores eletrônicos, acho que há uma aproximação entre o que consideramos “netbooks” e o que consideramos “leitores eletrônicos”. A linha que os separa está ficando mais borrada a cada ano, e acho que logo será impossível distinguir um do outro. Isso dito, não acho que há necessidade de superar a mídia impressa. Livros impressos têm vantagens que os livros eletrônicos não têm e vice-versa; porém, quanto mais a tecnologia permitir que os usuários enfatizem os benefícios dos livros eletrônicos (facilidade de acesso, busca, links internos etc.) e minimizem as desvantagens (baixa portabilidade, dificuldade de leitura etc.), mais os livros eletrônicos serão vistos como uma mídia viável, ao lado dos livros impressos.

As pessoas vêem o MP3 como modelo, mas levou quase uma década para que os MP3 fossem considerados sérios competidores para os CDs como modelo de distribuição de música, e os CDs ainda estão por aí. Acho que o mesmo acontecerá com os livros eletrônicos; algumas pessoas já abraçaram o potencial, mas a tecnologia ainda tem que eliminar ou minimizar as coisas que os livros eletrônicos ainda não fazem bem. Foi o que o iPod fez pela música digital. Os livros eletrônicos estão aí há bem mais de uma década, mas começaram a pegar no tranco nos últimos anos; logo, acredito que estamos à beira do ponto em que o livro eletrônico deixará de ser algo estranho que o “pessoal dos computadores” usa para se tornar algo que os usuários comuns consideram gratificante e útil.

Pessoalmente, este ponto sempre foi a questão do cansaço na vista ao ler em uma tela e, portanto, a tecnologia de tinta eletrônica foi a virada de mesa para mim. Mas já que o assunto é mídia impressa, e a impressão sob demanda (PoD)? Me pergunto se os analistas da indústria não estão abordando o assunto de um ângulo errado, tentando decidir se um dia os livros eletrônicos irão substituir os livros impressos quando a questão verdadeira é se a PoD não se tornará o método com melhor custo-benefício para distribuir livros impressos. O que você vê no futuro da PoD, tanto para a WW quanto para a indústria editorial?

Várias editoras já estão usando PoD para oferecer pedidos especiais ou distribuir certo livro mais rapidamente às lojas. Após a eleição presidencial, por exemplo, algumas editoras usaram PoD para pôr cópias da biografia de Obama nas lojas o mais rapidamente possível. Cada vez mais empresas estão usando [PoD] para cobrir tiragens baixas, ou até mesmo para se livrar totalmente dos custos de armazenamento. Como a PoD representa uma abordagem mais “ad hoc” da impressão de livros, eu a considero parte da nossa iniciativa digital – e estamos cada vez mais próximos de ter um programa robusto (espero!) de PoD para os nossos fãs.

Me pergunto se chegaremos a um ponto em que a PoD representará um custo-benefício tão grande que todos os livros, exceto os básicos, serão lançados desta forma – e mesmo assim, os livros básicos só sairiam em tiragens regulares [não-PoD] para a empresa ter algo para exibir em livrarias de rede e manter-se em evidência entre os distribuidores, mais ou menos como acontece com os cardgames e seus constantes lançamentos de expansões.

Com certeza, isso é algo que precisaremos esperar para ver, mas estarei definitivamente de olho em tais desdobramentos!

Só mais uma coisa que veio à mente enquanto lia alguns artigos sobre PoD e serviços de auto-publicação estes dias. Sabemos que a WW tinha um contrato com [o serviço de PoD] lulu.com e decidiu terminá-lo para recomeçar do zero nesse campo. Imagino que você não possa falar sobre os motivos exatos, mas me pergunto se poderia nos dizer o que a WW/CCP busca em um novo programa de PoD para que ele seja ideal.

(A título de contexto, fiquei um tanto surpreso com o que li neste artigo.)

Nós precisaríamos ficar satisfeitos com a qualidade dos produtos físicos, assim como com a facilidade de uso para a nossa área de produção. Já lançamos mais de mil produtos em PDF, e ter que modificar todos para oferecer os livros aos fãs seria impensável.

Mudando de assunto de formatos para o conteúdo em si: quais são as diferenças no desenvolvimento de material para um livro impresso comum e de conteúdo a ser distribuído eletronicamente? Em outras palavras, a mídia eletrônica afeta a maneira como o conteúdo é desenvolvido desde a sua concepção, ou em geral se trata do mesmo processo, só que com possibilidades extras que vêm à tona à medida que os rascunhos começam a chegar?

O Testamento de Longino

Há algumas mudanças, mas a maior parte disto acontece no momento da produção. Há muito mais foco nos links e em manter o formato mais enxuto (como pôr notas de rodapé em cada página do Testament of Longinus [Vampiro: o Réquiem] em vez de criar um apêndice no fim). Além disso, eu tento guiar os escritores para que escrevam intencionalmente para o espaço menor que os produtos eletrônicos costumam prever, mas às vezes faz mais sentido pegar uma contagem maior de palavras e dividi-la um pouco. Se há algo realmente diferente, é que as coisas são um pouco mais fluidas durante o processo de desenvolvimento em um produto digital, por termos tantas oportunidades extras das quais podemos tirar proveito durante o processo.

Que tipo de oportunidades? Dê-nos um exemplo…

Por exemplo, a contagem de palavras em Glories of the Most High [Exalted] veio muito maior do que esperava, mas tive dificuldades em diminuí-la. Em vez disso, decidi pegar o que deveria ser um único produto em PDF e dividi-lo em três PDFs distintos.

Ainda na questão do conteúdo: até então, a principal referência para o conteúdo eletrônico tem sido os suplementos “normais”; ou se trata de material de suporte para as linhas de jogo existentes, ou conteúdo que seria publicado em mídia impressa se houvessem consumidores suficientes para justificar isso. Porém, com uma série de possíveis novas áreas de conteúdo, como o futuro software de gerenciamento de crônicas e o MMO de Mundo das Trevas, podemos esperar diferentes tipos de conteúdo eletrônico no futuro? Ainda nesse âmbito, há alguma chance de que a área de Produtos Alternativos possibilite o lançamento semi-oficial de conteúdo localizado, como crônicas criadas pelo Camarilla Club ou material em outros idiomas voltado a bases de fãs locais?

Isso é algo bem amplo, então não tenho como dizer nada muito definitivo agora, mas eu posso dizer que estamos considerando outros tipos de produtos além de “eis um PDF com material suplementar para a sua linha de RPG existente”.

Ótimo. Seguindo em frente: quem te segue no Twitter sabe que você tem experimentado com jogos via Google Wave. Não temos estatísticas formais, mas parece que cada vez mais pessoas estão jogando RPGs na Internet utilizando diversas ferramentas, sejam elas produzidas especificamente para o hobby ou não, como os mensageiros instantâneos. O que você acha disso? Essas ferramentas levam a uma forma diferente de abordar os jogos? Como a WW poderia capitalizar esta tendência, tanto em termos de novas fontes de renda quanto de novidades de conteúdo?

Eu acredito que os jogadores sempre inovaram na busca de ferramentas e novas maneiras de aprimorar seus jogos, seja com tecnologias como máquinas de xerox ou com web sites. Não posso falar muito agora sobre as iniciativas futuras em nosso site, mas acredito que, nos próximos anos, veremos uma integração cada vez maior de tecnologias web com jogos de mesa, assim como mais experiências de jogo completamente virtual (via Google Wave, Skype, blogs, fóruns, wikis e assim por diante).

Não vejo a hora de ver isso acontecer. Mas enfim, tenho mais duas perguntas e então podemos encerrar. Vou começar com a esquisita: há alguma coisa que eu deveria ter te perguntado? E, em caso positivo, qual seria a resposta?

Você não perguntou sobre o videoclipe da [banda da] CCP! É demais: http://www.youtube.com/watch?v=VgvM7av1o1Q

OK, última pergunta para fechar a coisa toda. Às vezes parece que, para a indústria editorial, migrar para uma maioria de livros lançados em formato eletrônico é inevitável. Porém, o mercado de RPGs, como nós bem sabemos, é único. Os jogadores frequentemente tomam posições extremas; eles podem estar entre as pessoas mais ávidas para experimentar novas tecnologias ou entre as mais resistentes a mudanças. O setor por vezes parece refletir isso, e não há melhor exemplo do que as abordagens completamente diferentes que as duas maiores empresas de RPGs tomaram quanto aos livros eletrônicos [a Wizards decidiu não trabalhar mais com eles, enquanto a WW persiste e quer expandir este lado].  Embora os livros eletrônicos e os impressos não sejam mutuamente exclusivos, às vezes parece que muitos jogadores estão “tomando partido”. Como o mercado de RPGs não é grande o suficiente para se dar ao luxo de perder consumidores, não é assustador insistir no lançamento de mais conteúdo eletrônico? O que você acha que as editoras precisam fazer para atrair os jogadores mais relutantes para as vantagens dos produtos eletrônicos?

Antes vinha assim...

Com certeza é assustador, e é por isso estamos buscando a solução certa de PoD para que as pessoas ainda possam ter livros impressos. Mas não é a primeira vez em que o setor mudou seus formatos; houve uma revolta semelhante na “migração” dos boxed sets (caixas de jogos) para os grandes livros de regras. PDFs têm diversos benefícios, e embora algumas pessoas tenham percebido estes benefícios há anos, outras ainda estão começando a apreciá-los. Isso dito, as vendas de livros eletrônicos continuam a aumentar, enquanto as vendas de livros impressos continuam a cair – o que, pelo menos para mim, parece indicar que cada vez mais pessoas estão migrando para livros eletrônicos o tempo todo. É uma época difícil, mas também empolgante, na qual acredito que a introdução de soluções tecnológicas acrescentará novos benefícios e conveniências ao nosso hobby.

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3 pensamentos sobre “Entrevista: Eddy Webb, desenvolvedor de Produtos Alternativos da WW

  1. […] This post was mentioned on Twitter by White Wolf News, White Wolf News and wodbrasil news, wodbrasil news. wodbrasil news said: @eddyfate Portuguese version of your interview is (finally) up: http://tinyurl.com/yj7bo7d […]

  2. João Mariano disse:

    Excelente, excelente entrevista. Espero que seja traduzida para Inglês e postada na net porque é um bom trabalho jornalístico de que até os próprios anglófonos deveriam ler. 🙂

  3. fabiosooner disse:

    Olá João,

    Obrigado pela força! Pessoalmente, fiquei um pouco frustrado com a entrevista, mas por motivos que já sabia que seriam incontornáveis: no momento, a WW não tem nada de concreto para mostrar, apenas disposições gerais do que eles estão estudando fazer. Por isso tentei conduzi-la para uma conversa “genérica”, tanto sobre livros eletrônicos e tecnologia em geral quanto sobre as intenções da WW nesse campo. Fico feliz que tenha agradado.

    Ah, e a versão em inglês está salva. Vou só repetir as mesmas edições que fiz na tradução e publicá-la em algum lugar. Talvez no meu blog pessoal, que já é em inglês, e/ou em fórums por aí. Quando isso acontecer, vou divulgar no Twitter para quem quiser ver. A versão em português também deve aparecer em pelo menos mais um site, se tudo der certo.

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